!@ {o polifônico, [Jornalismo de Intervenção # Por Leonor Bianchi]

Museu Arqueológico Sambaqui da Tarioba coloca Rio das Ostras no roteiro do Turismo Cultural e Científico do litoral Norte Fluminense

Posted in Cultura by ImprensaBR on 07/01/2010

Recentes descobertas feitas no local apontam para possíveis relações entre os povos pré-históricos que habitavam a região há três mil anos

Leonor Bianchi

Em 1967, durante o primeiro ano do Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas realizado no estado do Rio de Janeiro, Rio das Ostras recebeu a visita de especialistas Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB), que demarcaram o sítio arqueológico Sambaqui da Tarioba.

Após a descoberta do mesmo, que também se deu naquela ocasião, foram precisos exatamente 30 anos para que o local fosse considerado como área de relevante interesse histórico para a Região. O achado de uma lâmina de pedra no terreno onde então passaria a funcionar a Casa da Cultura da cidade – área urbana da cidade – chamou a atenção e novas escavações foram encomendadas ao Instituto Estadual de Patrimônio Cultural (INEPAC) e ao IAB, pela prefeitura de Rio das Ostras. A data marcou o início de uma nova fase de estudos na área, quando foi celebrado um termo de cooperação e pesquisa entre o governo municipal e o IAB com o intuito de investigar e preservar o que restava do sítio, além de instalar no local um museu arqueológico.

Em 1999, a inauguração do Museu do Sítio Arqueológico Sambaqui da Tarioba revelou definitivamente para o público os aspectos da civilização pré-histórica que habitava a região há aproximadamente quatro mil anos. Sendo o primeiro museu de sítio arqueológico “in sito”, do Brasil – o que se caracteriza pela exposição dos materiais encontrados durante as escavações, feita no mesmo local onde foram achados – o Sambaqui da Tarioba tornou-se uma referência para a história e a memória da região e tem chamado a atenção de turistas e estudiosos, que vem à cidade para conhecer mais sobre a Pré-História dos povos do litoral fluminense.

Para título de estudo, identificação e datação, parte do material coletado quando das escavações realizadas entre os anos de 1997 e 1999 ainda está no IAB, em Del Castilho, Rio de Janeiro. No museu permaneceram peças de ‘cerâmica uma’ e diversos objetos de uso cotidiano, que ajudam o visitante a identificar através dos traços bio-culturais dos sambaquianos que ali se instalaram, seus padrões de subsistência e o tratamento que dispensavam aos mortos quando dos rituais funerários.

Modelo do Museu favorece interesse de pesquisa e atrai visitantes interessados no turismo científico

Para que o público pudesse acompanhar de maneira linear a história contada pela exposição permanentemente à mostra no Museu Arqueológico Sambaqui da Tarioba desde sua inauguração, os pesquisadores empenhados na implantação do mesmo idealizaram um novo modelo de apresentação de seu acervo. Com o ensejo de inovar e modernizar o conceito mesmo de ‘museu’, tradicionalmente caracterizado por ser um local onde acumulam-se objetos antigos, empoeirados e onde a história parece estar adormecida e distante da realidade atual, foi erguida em seu interior uma passarela de madeira ao longo das escavações feitas no local (que permanecem aparentes), permitindo que o visitante acompanhe visualmente a estratigrafia exposta e as evidencias de seu valor arqueológico. Ao fundo da galeria, um extenso painel pintado pelo artista plástico Francischetti retrata a paisagem natural da Rio das Ostras de quatro mil anos atrás com detalhes da abundante biodiversidade de fauna e flora encontradas na cidade naquele tempo. 

Com esta nova configuração museológica, o espaço instiga o fluxo de investigações científicas, incentiva a prática de atividades educativo-culturais direcionadas a escolas, e atrai turistas curiosos em conhecer um pouco mais sobre a organização social e a cultura material do homem pré-histórico brasileiro.

Dividido em sete setores, o museu deixa completamente à vista o resultado obtido nas primeiras escavações feitas no local, onde foram encontrados restos de alimentação, piso de argila, buracos de estaca, fogueiras, enterramentos, restos de moluscos, de caça e esqueletais.

Em um dos setores pode ser vista a estratigrafia completa do sítio, onde a mesma foi conservada. A superposição das camadas de terra do sitio ajudam a contar a história de sua ocupação. A mais antiga é a mais profunda e, segundo os técnicos responsáveis pelas pesquisas de campo no Sítio Arqueológico Sambaqui da Tarioba, foi estabelecida sobre as areias de um antigo terreno pantanoso há quase quatro mil anos. A mais recente, e mais alta, data de aproximadamente dois mil anos atrás.   

Quatro anos depois de sua inauguração, o museu passou por uma obra de revitalização, que permitiu melhor tratamento de seu acervo, que ganhou novo sistema de aclimatação e iluminação apropriada. Também foi produzido um material sonoro como informações complementares às placas de identificação dos objetos expostos no museu, que pode ser ouvido pelo visitante enquanto percorre a galeria no salão principal do mesmo.    

Naquele ano também passaram a compor o ambiente do museu, trabalhos feitos por artistas locais, como o busto do homem sambaquinano, feito pela artista Clara Arthaud. A primeira reconstituição do rosto do homem daqueles tempos foi feita depois de estudo, onde a artista trabalhou com plastilina colorida para modelar a musculatura do peito e do rosto do homem sambaquiano.

A maquete encontrada logo na entrada do museu, criada pelo escultor Roberto Sá, teve com base uma fotografia aérea de Rio das Ostras feita em 1954 e mostra o ambiente e a vida cotidiana do povo sambaquiano.

No Museu podem ser vistos em estado de preservação, fogueiras, artefatos (alguns inteiros e outros fragmentados) usados na vida cotidiana dos sambaquianos, restos esqueletais, além da evidencia de estacas. As primeiras escavações feitas nas camadas mais profundas do terreno do sítio revelaram as areias originais da superfície pantanosa, encontrada pelos primeiros habitantes locais e, segundo Denise Chamum, arqueóloga responsável pelas escavações no Sambaqui da Tarioba, no local do sítio o último e o mais recente solo do local, antes de seu abandono, data de, provavelmente cerca de quase dois mil anos.  

Além dos artefatos expostos em três vitrines, o visitante pode ver no Museu uma urna da tradição tupi-guarani detalhadamente decorada com entalhes feitos com espátulas. Também está em permanente exposição no local um mapa das Américas com as rotas de povoamento pré-histórico e outro com a malha urbana do município e a localização do Sambaqui da Tarioba e dos mais cinco sítios arqueológicos descobertos na cidade, fotos ampliadas das primeiras escavações, ilustrações do fabrico das peças usadas pelos sambaquinaos encontradas na pesquisa.

Escavações recentes revelam que o homem do Sambaqui da Tarioba participava de trocas culturais com outras sociedades Pré-Históricas da região

Recentemente a prefeitura de Rio das Ostras adquiriu o direito de exploração de uma área de 300 metros quadrados, que se estende à parte do Sambaqui explorada inicialmente, correspondente a 30% do que fora recuperado do sítio em 1997.

Mais precisamente, em março de 2006, uma equipe do IAB realizou a primeira etapa de escavações no trecho de terra localizado atrás do museu arqueológico, encontrando conchas, ossos trabalhados como furador, anzol, enterramentos e Ostréia (base da alimentação dos sambaquianos), fossas culinárias, fogueiras, batedores e quebra-coquinhos, fragmentos de ossos humanos, vértebras de animais, de animal e dente de animal perfurado e dente humano perfurado.

A arqueóloga Denise Chamum, autora do livro “Arqueologia & memória: O Caso da Musealização do Sambaqui da Tarioba”, a área investigada em 2006 diferencia-se das demais do sítio pelo fato de no local ter sido encontrado um dente humano com a raiz perfurada de forma proposital a fim de servir como adorno em colares ou pulseiras. Segundo a pesquisadora, material semelhante foi coletado pelo IAB durante escavações feitas nos sítios arqueológicos Corondó e Malhada, ambos em São Pedro da Aldeia, evidenciando possíveis relações inter-culturais entre os dois grupos sociais pré-históricos.

O caráter didático do Museu Sambaqui da Tarioba tem levado outros arqueólogos ao local em busca de referências para a aplicação das técnicas ali utilizadas, para a implantação de outros museus em diferentes cidades brasileiras. O destaque alcançado pelo Museu pode ser percebido pelo expressivo número de turistas que o visitam; cerca de mil por mês, segundo a Fundação Rio das Ostras de Cultura, e sua proposta inovadora de trabalhar a memória e o passado já viraram roteiro para documentários exibidos em canais de televisão como a TV ALERJ e TVE.

Cidade tem mais cinco sítios arqueológicos

Além do sítio Arqueológico Sambaqui da Tarioba, outros cinco foram encontrados em Rio das Ostras. Segundo o levantamento feito pelo IAB, quatro são sítios históricos e um, localizado no distrito de Cantagalo, área rural da cidade, é pré-histórico. Mesmo não estando à disposição de visitas públicas, os mesmos têm significativo valor para o patrimônio cultural e histórico da cidade. São eles:

Sítio da Jaqueira – Localizado na fazenda Sagitário, é um sítio histórico e está bastante destruído. O IAB analisa os cacos de telha, vidro e tijolos encontrados no local, para avaliar a qual período as peças pertencem.

Sítio Massangana – Descoberto na fazenda Atlântica, em área de antigo manguezal, o sítio Massangana é pré-histórico e, embora também bastante destruído pela ação humana, nele foi coletado material lítico utilizado para a quebra de alimentos.

Sítio Casa de Pedra – Fica em área de mata do sítio Cantagalo onde foram encontradas pedras alinhadas e fundações feitas de pedras, que representam fortes indícios de antiga construção edificada no local.

 Sítio Casa Rosa – Localizado na fazenda Santa Luzia, o Sítio Casa Rosa traz em sua casa-sede um belo exemplar de construção do século XVII. Próximo a ela está o sítio histórico, onde foi encontrado um muro de arrimo e fundações feitas de pedras, além de telhas com marcas, tijolos, vidros e louças.

Sítio Pasto do Cemitério – Localizado também na fazenda Santa Luzia, o Sítio Pasto do Cemitério tem um muro de arrimo e fundação feita de pedras, possivelmente de uma casa e não de um cemitério. Informação que só será confirmada após a realização de novas escavações. Nele foram coletados materiais coloniais, como fragmentos de telhas, tijolos, vidros e louças.

  

O Museu do Sítio Arqueológico de Rio das Ostras fica na Casa de Cultura de Rio das Ostras, localizada na Praça São Pedro, Centro. As visitas podem ser feitas de segunda à sexta-feira, das 9h00 às 18h00. Mais informações: (22) 2764-6350.

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