!@ {o polifônico, [Jornalismo de Intervenção # Por Leonor Bianchi]

O marketing do apagamento

Posted in Política by ImprensaBR on 06/01/2010

Leonor Bianchi

Quem conhece Rio das Ostras há pelo menos 10 anos presenciou as transformações que o município sofreu não só em termos urbanísticos, mas em nível social e econômico. Moradores antigos e veranistas da cidade apontam o período pós-emancipação, mais precisamente o início do mandato do ex-prefeito Sabino como sendo o grande divisor de águas na história do município. Foi nesse tempo, que Rio das Ostras passou a receber participação especial e royalties do petróleo produzido na Bacia de Campos, e que as iniciativas públicas tiveram maior volume na cidade, tendo sido construídas entre os dois mandatos do ex-prefeito (1997 – 2004), obras importantes para o desenvolvimento do município e para a melhoria da qualidade de vida de seu povo. Dentre as mais significativas estão as do Hospital Municipal, do Pronto-Socorro, do Centro de Reabilitação, do Teatro, do centro de Formação Artística, da Escola de Fundição, a nova sede da prefeitura, a construção de vários postos de saúde, escolas, creches, entre outras.

 

Embora não tenham sido realizadas no mandato de Sabino, outras obras importantes para a cidade foram licitadas durante seu último mandato, como a de distribuição de água, de reurbanização da rodovia Amaral Peixoto (incluindo a orla da praia da Tartaruga), da nova ponte sobre o rio das Ostras, assim como a obra de implantação do sistema de esgotamento sanitário (incluindo a finalização da Estação de Tratamento de Esgoto de Jardim Mariléa, e a do Emissário Submarino). Outra obra; a da nova ponte sobre o rio que nomeia a cidade, tornou-se símbolo do atual governo e seu desenho arquitetônico passou a ser a nova logomarca do município, substituindo o barquinho (logomarca anterior), que ainda está estampado em placas de logradouros e mobiliário público (como lixeiras e tampas de bueiros, por exemplo).

A licença ambiental para a construção da nova ponte sobre o rio das Ostras, assim como a de implantação do sistema de esgotamento sanitário, a do aterro sanitário de Vila Verde e a das obras de reurbanização das praias da Tartaruga e Abricó foram expedidas ainda em 2004 pela Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente (Feema).

O projeto Água para Todos, talvez o mais vendido pelo atual governo como sendo de sua gestão – perdendo apenas para o de saneamento básico – também não é de sua autoria. Em 2002, dois anos antes do atual prefeito assumir o governo, Sabino já havia sacramentado o convênio para a viabilização da obra entre a prefeitura e a empresa responsável pelo fornecimento de água no Estado, a Companhia Estadual de Águas e Esgoto (CEDAE).

Na mesma relação, encontra-se ainda o projeto de reurbanização da praia da Tartaruga, apresentado pelo ex-prefeito em fevereiro de 2003, e que só foi executado no final de 2007.

Até onde pode ir o efeito bumerangue de uma estratégia errada?

Ao contrário da expectativa que desejou criar no (novo) morador de Rio das Ostras com a estratégia de fundar um símbolo mais moderno, arrojado e futurista para ‘vender’ a cidade, a empresa que trabalha o marketing político do atual governo se esqueceu que, apagar o símbolo do barco do imaginário social dos moradores e turistas nada mais é do que negar (apagar) as raízes culturais do povo da cidade, calcadas na cultura da pesca, que tem como maior ícone senão o próprio mar, as imagens do barco, da traineira, da antiga jangada e do pescador.

Além disso, sendo Rio das Ostras uma cidade turística na Costa do Sol, seriam justamente suas belezas naturais como lagoas, rios e praias – seus principais atrativos – que deveriam estar retratadas nos folhetos e peças publicitárias que promovem o município. Esse conceito foi substituído. A fixação de um monumento ao concreto – a nova ponte sobre o rio das Ostras -, que seria uma ode ao desenvolvimentismo, à metrópole, impôs-se em seu lugar. Simplesmente tudo o que o turista quer esquecer quando busca entretenimento, tranquilidade e descanso ao visitar um balneário como Rio das Ostras.

Contraditoriamente a este raciocínio, o ex-secretário de Comunicação Social do município, Luiz Fernando Mello, argumentou, à época da inauguração da nova ponte sobre o rio das Ostras, que “as instituições atuais buscam símbolos visuais para marcar os valores que desejam transmitir, e com a escolha da nova ponte, Rio das Ostras associa seu nome à ideia de desenvolvimento com uma base sólida”.

É claro que o turista quer encontrar uma cidade com infraestrutura para recebê-lo, com rede de distribuição de água, saneamento básico, ruas limpas e segurança. Mas, além disso, é sabido, também, que o turista anseia por distanciar-se de tudo o que faz referência aos grandes centros e ao cotidiano urbano durante sua viagem. Considerando-se esta breve observação, a nova estratégia aplicada pelo marketing do governo ainda pode render frutos desfavoráveis para o fluxo de um turismo de alto nível em Rio das Ostras.

A construção da imagem do rei

Mesmo partindo do pressuposto de que a pedra fundamental para conseguir prestígio, popularidade e respeito da população de Rio das Ostras residiria no apagamento da memória social do povo riostrense, Carlos Augusto, ainda que não escondendo seu rompimento político com o ex-prefeito Sabino – seu antecessor, principal aliado em sua campanha eleitoral de 2004 e único opositor nas eleições municipais de 2008 – está executando as obras deixadas no papel pela antiga administração.

Se houve continuidade na realização de projetos licitados pela gestão anterior, o mesmo não se pode afirmar com relação à identidade do governo, que vinha sendo construída há oito anos pelo prefeito anterior. Identidade desconstruída pelo atual governo, produzida e direcionada para uma mídia viciada em comercializar simulacros, mas, sobretudo, e, fundamentalmente, uma identidade nova, que deve ser incutida no inconsciente do próprio munícipe através de estratégias de controle do imaginário.

A ânsia de afirmar ser o responsável pela fundação do mito cosmogônico de Rio das Ostras faz com que o governo reelabore códigos, valores, sobretudo os ligados à arqueologia do lugar, de seu povo, e de todo o seu cenário natural. A extração de diversas placas de obras públicas colocadas quando de suas inaugurações na gestão anterior configuram a falta de know how dos ‘marqueteiros’ responsáveis pela imagem do prefeito. Nada mais representativo para uma gestão administrativa do que as importantes obras públicas que ela realizou, correto? Assim como nada mais fiel a essa representação do que a ‘imortalidade’ dessa obra simbolizada através de uma placa de bronze datando o ano em que a obra foi entregue ao cidadão.

Mesmo considerando o ensejo que uma gestão administrativa possa ter de criar uma identidade visual própria, percebe-se que a atual gestão mantém uma política de apagamento de imagens referentes aquela que a antecedeu. Chegando a arrancar placas de prédios públicos que faziam referência ao nome do ex-prefeito, como aconteceu com as placas do Pronto Socorro e da Ponte da Boca da Barra entre tantas outras.

É legal o governo licitar compras de centenas de galões de tinta para recolorir todos os próprios públicos de cor de abóbora pelo fato de querer imprimir sua marca durante seu mandato. A pintura de todos os prédios de cor de abóbora acabou ajudando a preservá-los, não se pode negar, mas a ideia original da pintura não foi esta, ou seja, a preservação. A cada retoque no muro cor de abóbora, a brocha revela a estratégia do departamento de marketing da prefeitura.

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