!@ {o polifônico, [Jornalismo de Intervenção # Por Leonor Bianchi]

Semana Nacional de Museus: Quem viu?

Posted in Bárbara Revelles by ImprensaBR on 30/05/2011

Por Bárbara Revelles e Leonor Bianchi

No dia 18 de maio comemora-se o Dia Internacional dos Museus. Peço licença para usar a primeira pessoa e dizer que, mesmo sendo frequentadora, (mas longe de ser habituée) esse dia quase (quase) passou em branco no meu calendário. Vejamos:

O Ibram, Instituto Brasileiro de Museus, programou para comemorar a data realizando a 9º semana de museus, cujo tema este ano foi Museu e Memória. Mil e nove instituições participaram, oferecendo seminários, exposições, oficinas, espetáculos. Porém, no ‘meio artístico’, as notícias que repercutiram (e até as que não repercutiram) durante a semana, estavam fora do programa.

Para mim, o mais grave foi a cobertura mui discreta (para não dizer omissa) da morte de Abdias do Nascimento, adido cultural do Brasil, multi-artista e militante incansável contra a discriminação racial, que faleceu no dia 23 de maio aos 97 anos. Abdias foi pioneiro em expandir iniciativas de educação artística para cadeias, sindicatos e organizações sociais como instrumento de transformação social, primeiro com o teatro, e mais tarde nas artes plásticas. Foi ele quem concebeu o Museu de Arte Negra – MAN, que apesar do acervo de valor incalculável até hoje não possui uma sede própria. Indício número um de que as artes plásticas no Brasil não estão com essa bola toda, e os museus muito menos.

Numa leitura retrospectiva, o mesmo jornal de televisão que deu a nota do falecimento de Abdias na tarde do dia 24, deu destaque bem maior a fotos artísticas que o poeta Araripe Coutinho fez no Palácio Museu Olímpío Campos, em Aracaju. As fotos, que ilustram o livro do poeta e mostram o artista seminu dentro das dependências do museu, foi motivo de polêmica e desconforto entre as autoridades, que desejam apurar quem autorizou a entrada do poeta e o ensaio fotográfico. Mais um capítulo da conhecida novela do falso moralismo brasileiro. O artista respondeu que estava apenas apresentando uma nova perspectiva de onde as pessoas pudessem repensar a arte, a poesia e a si mesmas. O que deveria ser o objetivo da arte (ou será que a arte não pode ter objetivo?). Paradoxalmente, o fato de o palácio, que já foi sede do governo sergipano ter sido ‘profanado’ pelo artista, levou o museu a ganhar notoriedade a partir do momento em que deixou a condição de ‘imóvel’, chegou às páginas do livro de Coutinho e de lá ganhou a Web, o Olimpo pós-moderno onde todos (até os museus) tem seus 15 minutos de fama. Dentro do tema ‘museus’ essa foi a notícia que alcançou a maior notoriedade durante a semana.

Aliás, eu nem saberia da existência de uma Semana de museus, não fosse uma visita acidental ao Museu de Arte Assis Chateaubriand, em Campina Grande-PB. O museu é fruto da Campanha Nacional dos Museus Regionais e foi fundado em 1967, por iniciativa de Chateaubriand e Pietro Maria Bardi, os mesmo ‘lunáticos’ que idealizaram o MASP e tinham a intenção de extrapolar o circuito artístico para fora do eixo Rio – São Paulo. Desde os anos 40 se sabia que para a arte ser experimentada, conhecida e amada, ela precisaria estar próxima da população.

Nas proximidades de Campina Grande e do MAAC – sendo inclusive citada em algumas de suas obras – estão as Itacoatiaras de Ingá, o segundo sítio arqueológico mais importante do Brasil. O bloco rochoso esculpido em baixo relevo apresenta inscrições impressionantes, datadas de mais de cinco mil anos. Apesar de a entrada ser franca e o parque estar a apenas quatro quilômetros do centro da cidade, a maior parte das pessoas com quem conversei nunca haviam visitado o sítio. As explicações ao visitante são dadas por poucos interessados movidos por simples pela força de vontade. O sítio é tombado pelo Iphan, depois de quase ter sido demolido por uma pedreira nos anos 40. O abandono é evidente e a graça da preservação durante esses milênios se deve a pedra, matéria-prima escolhida pelos povos nativos. Porque a força de sua expressão artística parece não interessar muito habitantes ou cientistas?

A Memória precisa de museus?                             

Segundo a definição do International Counsil of Museums, um museu é “uma instituição permanente, sem fins lucrativos, a serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, aberta ao público e que adquire, conserva, investiga, difunde e expõe os testemunhos materiais do homem e de seu entorno, para educação e deleite da sociedade”. [i] Porque será então, que estes espaços têm sido negligenciados pelo público brasileiro, um país internacionalmente reconhecido pela sua arte, criatividade e até (porque não dizer) pujança espiritual? A arte brasileira se manifesta livremente nas ruas, nos espaços públicos, na dinâmica das relações sociais e pessoais. No entanto quando esse material cultural se submete à ciência museológica, parece perder vigor e as instituições dedicadas a preservar esse patrimônio ficam relegadas ao ostracismo. Enfim, qual seria o sentido em salvaguardar um patrimônio que não interessa aos brasileiros? O que será que é preciso para que a sociedade se sinta parte da engrenagem de preservação da nossa memória e a torne viva, dinâmica, permanente?

Onde entrou o Sambaqui da Tarioba na Semana Nacional de Museus?

Pois é, amiga jornalista, ‘andarilha’ deste imenso Brasil… em Rio das Ostras temos um sitio arqueológico também, o Sambaqui da Tarioba. Aqui, a Semana Nacional de Museus foi completamente ignorada no ano passado… e este ano, a Fundação Rio das Ostras de Cultura teve a cara de pau de entrar no programa do projeto sendo que não abriu o museu Sambaqui da Tarioba à visitação com o argumento de que o mesmo estaria em más condições de conservação. O projeto, este ano, resumiu-se a levar o museu para dentro das escolas municipais pra não passar em branco novamente.

Sei dizer que a coisa por aqui foi balela. Encontrei com a Relações Públicas da Fundação de Cultura na rua, a Cassia Liu, um mês antes da Semana Nacional de Museus e ela me contou que a Fundação participaria do projeto com essa dinâmica. Ok, bacana, legal, mas e o museu Sambaqui da Tarioba, a quantas anda, por que está em más condições de conservação?

Ei, gente, vejam bem, entenda-me Cassia, você não levantou um problema propriamente da Cultura de Rio das Ostras, não quero dizer isto, mas deixou escapar sem querer, que a própria Fundação não consegue dar conta do seu patrimônio, se conseguisse, o museu Sambaqui da Tarioba não estaria em más condições. Veja bem, trabalho com fatos, não com citações feitas em conversas nas ruas da cidade… estas só embasam os fatos observados e constatados… e… patrimônio, que aliás não é dela, expressei-me mal, é público. Melhor dizendo, a Fundação de Cultura não consegue gerir sua pasta, os aparelhos culturais (inertes) da cidade e seu (por que não?) patrimônio cultural; o museu in sitio (se não me engano, o único no Brasil nesta classificação) Sambaqui da Tarioba.

Tem pano pra manga, Babi…

Tenho uma reunião às 13h. Agora não poder fechar minhas observações e fazer um texto que dialogue com o teu, falando sobre como não foi a Semana Nacional de Museus em riodas, mas está aí a revelação de que não existe política para a preservação da memória em nosso país, apenas um simulacro dela… 

Um beijo,

LB                               

 

Anúncios
Tagged with:

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s