!@ {o polifônico, [Jornalismo de Intervenção # Por Leonor Bianchi]

Crise no espetáculo, acontecimentos na tela

Posted in Videofonia by ImprensaBR on 10/09/2011
Crise no cinema ou crise de ideias… um sufoco democrático? A condição brasileira é a de construir um Estado que não muda.
Por Luiz Rosemberg Filho e Sindoval Aguiar, do Rio de Janeiro
No que falta flexibilidade a um saber mais pensado e profundo, o que predomina é uma intensidade de espetáculos de aparências. Ou seja, sem complexidade ou contradição alguma. E na tragédia nossa de cada dia, o Brasil é apresentado doce, tranquilo, bem humorado e collorido. O país adormecido em “berço esplêndido”, que sonha em ser aceito em Hollywood. Humberto Mauro, Fernando Campos, Glauber, Joaquim Pedro… o que fazer dos antigos mestres e inventores? Sartre com muita propriedade dizia que: “É melhor vencermos a nós mesmos do que ao mundo”.Eficazmente, trabalha-se em formulações de estados alienados na comunicação. O povo sem consciência alguma trabalha para os bancos, multinacionais, religiões e UPPs, um reaparelhamento do Estado que institucionaliza fascismos. Fala-se em integração para esconder a exploração velada ou mesmo escancarada. Perpetua-se a ignorância, a miséria e a barbárie em tons televisivos. Mas… o cerco capitalista é vendido como necessário contra uma politização educacional libertadora, real. Desalienar, nunca! É lei do capital. Lei do mercado. Lei da classe dominante amparada pela religião e pela TV.Ora, não acreditamos no simplismo dos muitos discursos como a defesa de um cinema em 3D na favela do Alemão. Claro, um “cinema” antidemocrático a impor os requintes perversos de Hollywood. Que interesse isso tem para nós se logo, logo passa na TV aberta? E o que é a TV senão uma imprescindível sucursal do capital financeiro e do imperialismo? Ao lado dela, cinema-pensado algum pode proporcionar organicidade a um saber mais profundo. Daí a alienação como historicidade concreta do capitalismo que nos é como mercadoria pacificadora. O tal do acesso às favelas pela elite nada mais é que um uso de um ‘gauchismo religioso’ babaca, para que nada seja alterado. Porque precisamente o povo só pode ser povo para que a elite possa reinar com os seus mecanismos de sedução barata: novelinhas, cinema em 3D, televisão, sucesso, espetáculo, violência, Oscar e Hollywood.
Crise no cinema ou crise de ideias… um sufoco democrático? Sem dúvida o reflexo sobre tudo isso é na política tradicional, e alcança também a política cinematográfica. Mais especificamente a produção, a distribuição e a exibição de um filme, independentemente se o filme é uma obra de arte ou não. O mercado e a indústria cultural são fundamentos de um estruturalismo cultural e ideológico. A maximização da alienação e dos lucros propiciaram o poder em todos os níveis, particularmente na indústria cultural. Para o grande capital, a massa popular não produzia riqueza, não podia consumir; e muito menos cultura, arte e conhecimento através de filmes. Um produto que precisa se sofisticar para atender à elite. Produto que a burguesia consome em seus redutos de ócio e lazer: os centros culturais, os ditos cinemas de arte e os shoppings. E as televisões se alimentando dos enlatados como contrapartida à docilidade e à subserviência aos padrões estrangeiros, notadamente americanos.
Ou seja, fomos sempre fiéis à fábrica hollywoodiana da fantasia. Então, na tela da política, do Estado como instituição, a boa fé fajuta do cinema e da entropia. E tudo isso para nada, apenas uma rearticulação da atual heteronímia, com divisões e associações de um mesmo acontecer, o de um poder intocável desde que a sua fundação por aqui passou. Situação em que o mito não se mete porque de tela ampla e de todas as telas de imagens e do imaginário. Como um princípio, o do ver e o do ouvir mas sem ceder ou emporcalhar. Como o espírito da música e a linguagem da poesia, um princípio sistêmico e fundador de qualquer cultura que se preze: a de formação, esta que não passa por aqui.
A condição mitológica de qualquer povo ou etnia não gosta da unanimidade, como uma associação, mas da diversidade como presença e diferenças para a ampliação e beleza da tela. Com esses princípios somos remetido a Pallocci e ao cinema novo do morro, das favelas. Relação de um mesmo, vendido como diferente. Pedimos a ajuda de Gramsci para uma melhor definição: “A unidade histórica das classes dirigentes ocorre no Estado e a sua história é essencialmente a história dos Estados e, potencialmente, ocorre em relação à classe operária e subalternas que não podem se unificar enquanto não são Estados”.
Esta é a única condição brasileira, a de um Estado que não muda. Onde estamos comprometidos com algo nunca revelado (como Palocci e o cinema). Como no poema “Salvatore Cineasta”: “De volta ao passado/ De volta ao começo/ De volta ao princípio/ De volta ao fim/ De volta ao fim do começo/ Ao superficial/ E ao sistêmico/ Crise na entropia/ Construindo heteronomia.”
Na agricultura aprendemos que se a erva é daninha e insistente, resistente, bulbar, o herbicida precisa ser sistêmico, como o veneno das corporações e do agronegócio, que tudo envenenam. E ser aplicado com cuidado para não matar o que cultivamos, algo que ainda não conseguimos aplicar na política nem no cinema. Como nossos mitos são insistentes!
E assim vamos atendendo à nossa história, ao fascismo econômico, político, cultural e cinematográfico. Nossa fundação, de seres do nada, torna-se uma das mais sistêmicas do planeta, de raízes tão profundas que somente a água pode alcançar para ninguém mais tocar. Fundação que parte do tempo e se reflete na independência, república, ditadura e em todas as variáveis. Condição a que nenhum herbicida pode tocar! Porque, todos são falsificados como em Palocci e no cinema “novo” dos morros. E o que teria de tão especial essa planta Palocci para ganhar todo esse destaque na mídia, nos meios de produção e neste Estado a que se refere Gramsci?
Seria uma planta nova a invadir a erva daninha? Claro que não! Acontece que o Estado das ervas precisa de um novo espetáculo mais collorido. Onde o bolo atenda mais. Fora os pobres porque em bolo de pobre o levado não ajuda, como dizia Delfim Netto a levedar o bolo da ditadura e do capital internacional.
Por que, então, fazer de Palocci um bode expiatório, como fizeram também com José Dirceu? Não seria o movimento espetacular das mesmas classes dirigentes, as do poder, para a obtenção de mais um pouco ou todo o poder, porque está agora acossada? O futuro para essa classe de poder estaria durando muito tempo? Porque no poder, diferença ninguém tem, a não ser os nomes da pia batismal. Sarney, Collor, a mídia, os bancos, os meios de produção mais os etc. e tal.
O que estão querendo mesmo é a reorganização da entropia para amenizar a heteronomia. Ainda mais equilíbrio agora para o outro mesmo lado! Esta é uma crise que não desestabiliza, nem estabiliza, reorganiza. Atende a mais vontades e representações. Mais um espetáculo para o cinema; um outro cinema, com aquelas crises tão bem estudadas por Gramsci na velha Itália, muito igual as do novo Brasil. Igual as nossas mas, sem estudo ou filme nenhum, porque os nossos são antropológicos, fundadores de uma antropologia cinematográfica e midiática transnacional e com festivais até para francês ver, na França, claro. Um festival itinerante como o das comemorações de grandes invenções!
E como alguns franceses estão ficando muito parecidos conosco, ficaram encantados, como Montaigne ao ver alguns índios nossos, um dia levados até a França, como nos conta Afonso Arinos em seu impecável livro O Índio Brasileiro na Revolução Francesa. Estaríamos repetindo a história, ou como cinema foi só uma farsa? Nossos filmes das UPPs, das forças armadas, das corporações, etc. estariam contagiando a França de Godard, Resnais, Rivette, Clair, Vigo, etc? Quem sabe?
Seriam filmes de realidades feitas por nós mesmos e pelas nossas tropas de elite? Resolvemos conferir! Os Salvatores cineastas, com a obra prima de Francesco Rosi (Salvatore Giuliano), entre nós O Bandido Giuliano. Revendo esse filme cuja construção se dá a partir de um corpo estendido no chão e que nos remete às complexidades econômicas, políticas e culturais a que se refere Gramsci em toda a sua obra sobre a miséria. E que alcança a cultura e o homem italiano em suas urdiduras de poder na geração de desigualdades, da violência e na preparação do próprio fascismo que já se fazia presente sob tais condições. Giuliano, um jovem do gueto siciliano, vítima de tanta miséria e desigualdade, resolve peitar o poder, sem a menor noção do significado da luta de classes.
A aristocracia siciliana almejava um Estado independente e resolveram utilizar esse pequeno embrião de organização de força e de desejos, e envolvê-lo em seus interesses. Assim resolveram porque a própria aristocracia estava muito dividida no negócio de poder, o que o filme mostra de forma contundente como uma epistemologia do capital e da luta de classes contra Giuliano, o pobre, e a caminho do fascismo sempre atual, o que a luta de unificação italiana documentou muito bem. Salvatore Giuliano, um filme excepcionalmente criativo do nacional realismo italiano. Giuliano, um pobre mito na luta contra a miséria, de repente perto do poder e de suas contradições, abismos e armadilhas, quando também se finda…
A ideia de um Salvatore cineasta brasileiro nos teria nascido a partir dessas trágicas e envolventes contradições. Palocci, a política, a cultura, o cinema. Em contraposição ao bandido Giuliano, morto, nosso cineasta começaria o filme com vida, sentado numa tradicional e fajuta cadeira de diretor. No epicentro da favela, o da desova e extermínio entre eles mesmos, os favelados. Estes que agora, filmam por si mesmos!Uma história como princípio de consciência e de luta de classes. Qual seria o fim do cineasta, o mesmo de Salvatore Giuliano na vida real? No filme italiano, a aristocracia siciliana usou o bandido em SUS pretensões. Aqui, o cineasta seria utilizado também? Assim como chegou ao cinema, ou foi o cinema que chegou até ele com o ranço da classe dominante? Não estaríamos na fase mais dura do cinema, a do capitalismo ex-máquina? Varrendo as telas para Roliude, varrendo as entranhas da terra para saquear e varrendo as entranhas humanas para aderir e participar? Qual o projeto do Salvatore cineasta? Talvez ser protegido por tropas das forças armadas, da polícia e das elites bem representadas.
No fim o cineasta poderia responder a uma última pergunta: “Por que, até o poder que tudo detém, não abre mão da arte?” E ele responderia: “Porque nela, o artista poderia realizar o que a realidade não permite.” Mas quando as reflexões desaparecem e perdem força, pela autonomia do poder, que tudo compra, a política dos bancos e das corporações deixa sua marca! O cineasta possui alguma consciência, mas prefere a dialética do poder. Sem a força não quer resistir, mas aderir… e ficar forte também! Forte entre os fracos, pois nada será alterado.
setembro/2011
Mais sobre Luiz Rosemberg Filho
rosemba1@gmail.com 
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