!@ {o polifônico, [Jornalismo de Intervenção # Por Leonor Bianchi]

15-O: Relato sobre a ocupação em Rio das Ostras

Posted in Brasil, Cidadania, Cidade, Cultura, Economia, Educação by ImprensaBR on 17/10/2011
Somos vitoriosos: essa certeza cada um dos manifestantes carregou consigo ao findar o ato. Em nossa cidade, quem esteve na agitação da ocupação foi o grupo de juventude Tecendo o Amanhã: espaço de formação, reflexão e intervenção política. Esse grupo é composto por alguns militantes experientes e por muito novos companheiros, que ao tomarem consciência da exploração e opressão que o sistema capitalista exerce sobre nós diariamente, ao terem clareza da luta de classes, se comprometeram com a construção diária de uma alternativa socialista. E o desejo e comprometimento com a revolução a cada dia se fortificam.
Todo o processo ocorreu de forma horizontal, onde todos tiveram igual peso de escuta e deliberações. Fizemos uma divulgação sistemática e subversiva: redes sociais, panfletos, lambes por todos os cantos da cidade. Dialogamos com diversos grupos, desde a igreja até a universidade e os servidores públicos municipais.
Éramos em torno de 60 pessoas a ocupar a praça durante todo o dia: secundaristas, universitários, professores, funcionários públicos, o movimento antiproibicionista, o movimento pela terra, os jovens skatistas, que vem sofrendo perseguição no município e mais tantos outros moradores do município que se juntaram ao grupo para participar da plenária.
Fizemos uma oficina de cartazes onde debatíamos cada tema lançado ao papel; brincamos e rimos juntos em jogos de cooperação onde reafirmávamos ludicamente nossos princípios políticos; tivemos uma dinâmica sobre o que significa a mais valia e um bate papo sobre o que é o capitalismo; em nossa assembléia fizemos uma cartografia das demandas de nossa cidade, de onde a democracia se torna apenas uma falácia e tiramos o conteúdo para uma carta de reivindicações à Câmara/Prefeitura. Além disso, recolhemos mensagens dos protestantes e transeuntes direcionadas ao poder público. Tiramos como deliberação, que pediremos os dez minutos de Tribuna Popular, direito garantido por lei e que apenas nessa semana será utilizada pela primeira vez pelo Sindicato de Servidores Públicos de Rio das Ostras. Seremos os próximos.
Sobre a repressão
Baseados na ausência de “permissão” para a manifestação a Guarda Municipal recebeu ordens de controlar o ato. Logo pela manhã, quando o primeiro manifestante chegou e armou uma barraca um Guarda lhe deu a ordem de retirar. Estando sozinho naquele momento, acatou sem maiores resistências. O grupo foi aumentando e a ocupação acontecendo fisicamente: colamos cartazes, montamos uma tenda para proteger os equipamentos e, como a praça central do nosso município ( Praça José Pereira Câmara) não tem uma sombrinha sequer, ensaiamos armar uma lona para nos abrigar do sol.
Há uma câmera da guarda municipal virada para a praça, que permite que toda a movimentação seja observada, e nesse momento em que abrimos a lona eles se sentiram no direito da repressão. Chegou um carro da GM com cerca de quatro homens e inicialmente o porta voz deles nos abordou com bastante agressividade. Exigiam que apontássemos um líder, um responsável pelo ato, ao qual respondemos sermos todos (esse posicionamento perturba muito a ação da guarda, que tem uma formação hierárquica pesada), sem anonimato mas sem um “chefe”.
Alegaram que para a manifestação acontecer tínhamos que ter uma autorização da Secretaria de Turismo (!!!) ao que respondemos com o que diz a constituição: que temos garantido o direito de livre manifestação desde que seja pacífica, não seja anônima e não frustre outra manifestação que já esteja ocorrendo. Não era o caso.
Conseguimos, além de mostrar que tínhamos embasamento para estar ali, fazer toda a negociação com calma e respeito, exigindo inclusive dos Guardas que nos tratassem com o mesmo respeito. A negociação foi bem sucedida: abrimos mão nesse momento da lona e de uma barraca, continuamos com a tenda, a aparelhagem, e toda a programação do ato na praça.
“Vocês não podem fazer uma favelização dessa e enfeiar a cidade. Olha que horrível! Rio das Ostras é uma cidade turística”, disse um dos guardas municipais.
No fim da tarde, logo após a Assembléia, a chuva veio participar do ato também. Com isso precisamos reabrir a lona para proteger os manifestantes da chuva fria e nossos equipamentos eletrônicos da “morte”. Com isso a GM voltou. Eram então muito mais numerosos e apesar de a grande maioria estar numa abordagem minimamente paciente o GM que fora porta voz da negociação pela manhã era um poço de arrogância e agressividade. Mais uma vez explicamos de onde surge essa movimentação, da ineficácia do capitalismo para sanar as necessidades humanas de forma geral, de como as políticas neoliberais implementadas apenas lesam o cidadão, de como a democracia representativa é falha e reafirmamos o discurso da liberdade de manifestação, do sentido de uma praça, da organização horizontal, da não agressão e do respeito e, sobretudo, de como a repressão exercida por eles era mais uma expressão do capitalismo: temos trabalhadores oprimidos como nós na condição de opressor direto. Essa negociação foi um pouco mais longa e enquanto um grupo conversava com os guardas a outra parte tirava palavras de ordem que explicavam o motivo da ocupação. Entramos mais uma vez num acordo, a lona pode permanecer enquanto houvesse chuva, estipulamos um horário par sairmos da praça (que na verdade era o nosso limite físico), excetuando-se pelo camarada que sentiu sua autoridade diretamente ferida, os companheiros GMs saíram da praça em clima fraterno e ao som de aplausos de todos nós. Somos iguais.
Momento Cultural
A chuva ficou tão emocionada com a resistência e acreditou tanto na revolução que não quis ir mais embora da manifestação. Com sua companhia e abrigados pela conflituosa lona azul cantamos a transformação, cantamos um mundo sem senhores, dançamos em cumplicidade com a exploração de tantos trabalhadores com nós, recitamos a educação de qualidade e para todos de mãos dadas aos companheiros chilenos… Aproximadamente às oito da noite recolhemos a lona azul, guardamos os equipamentos e transportamos nossa tenda branca por alguns quarteirões (sim, uma cena muito curiosa). Em um canto reservado tomamos alguns goles, nos abraçamos, sentamos juntos na calçada cobertos pelos lençóis do piquenique e em nossos olhos exaustos morava também a felicidade de um dia de vitória.
Fonte: Coletivo de articulação do movimento.
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