!@ {o polifônico, [Jornalismo de Intervenção # Por Leonor Bianchi]

Dia do Trabalhador é tema do Cineclube Cinemofônico

Posted in Cineclube Cinemofônico, Cultura, Videofonia by ImprensaBR on 29/04/2012

Ao longo desta semana o Cineclube do jornal O Polifônico – o Cinemofônico – apresenta um programa dedicado às obras cinematográfica do cinema mundial que contextualizam o universo do trabalho e do trabalhador.

Abrimos o programa com o filme de Elio Petri, A Classe Operária Vai ao Paraíso, ícone do cinema italiano dos anos 70.

Reunindo três grandes nomes do Neo-Realismo Italiano; o próprio diretor, o ator Gian Maria Volontè, e o compositor Ennio Morricone o filme permanece forte nos dias de hoje, mesmo com tantas mudanças sociais e econômicas no cenário mundial.

Depois de ter permanecido anos sem entrar nas listas de mostras de cinema e principalmente das salas de cinema, foi lançado em DVD em 2009 (Versátil).

Elio Petri, nasceu em Roma em 1923 e faleceu em 1982. Seu pai era operário, e a convivência com a vida dos trabalhadores levaram-no a integrar no maior partido comunista do Ocidente, o PCI, onde esteve à frente de inúmeras atividades culturais desenvolvidas para a juventude. Formado em Literatura pela Universidade de Roma colaborou na imprensa onde escrevia críticas para o L’Unità, jornal oficial do partidoA militância no PCI durou pouco. Em 1956, por discordar da invasão soviética da Hungria, decidida pelo Kremlin para sufocar a tentativa de revolta do país contra o regime, deixa o partido.

Um tour-de-force do grande Volontè

Texto de Sérgio Vaz

aclasse2

Gian Maria Volontè tem neste filme uma das melhores atuações de sua carreira brilhante. É uma interpretação extraordinária, um tour-de-force, uma coisa assustadora. Ele faz o papel de Lulu Massa, um operário de uma grande fábrica de peças de metal em uma cidade industrial do Norte da Itália (deve ser Milão, mas o filme não diz isso claramente); trabalha muito, e bem, e por isso é benquisto pelos chefes e mal visto pelos colegas mais ativistas, engajados no movimento sindical. Mas não é uma pessoa feliz ou tranqüila – muito ao contrário. É um sujeito atormentado, à beira de um ataque de nervos, ou de um surto psicótico; questiona tudo na vida; é um chato de galocha na relação com a atual mulher, Lídia (Mariangela Melato), uma cabeleireira, e com o enteado, assim como na conflituosa relação com a ex-mulher e o filho. É também daquele tipo comum de pessoa pobre e inculta que encontra em classismos racistas uma forma de se considerar melhor que os outros: como tanta gente do Sudeste brasileiro em relação a quem nasceu da Bahia para cima, ou como tanto branco americano pobre e fodido, white trash, em relação aos imigrantes ou negros, orgulha-se de ser do Norte da Itália, “quase na fronteira com a Suíça”, e tem desprezo pela gente do Sul.

Numa visita a um ex-colega de fábrica, Militina (Salvo Randone), internado em um hospício, Lulu pergunta a ele como é que uma pessoa percebe que está ficando doida.

Todos os dias, na entrada e na saída da fábrica, Lulu e seus colegas de trabalho ouvem as ladainhas de dois grupos opostos que lhes falam com megafones: de um lado, os sindicalistas, defendendo a tese de que a luta deve ser paulatina, lenta, gradual, para que se possam obter conquistas, vantagens, melhorias salariais e de condições de trabalho; de outro lado, estudantes de extrema esquerda que defendem a radicalização total, o enfrentamento aberto, a greve geral. Imagino que a posição dos sindicalistas fosse, na época do filme, 1971, a do PCI que Petri havia abandonado; a dos estudantes era a dos extremistas que depois partiriam para a luta armada, as Brigadas Vermelhas.

E aí é que está: não fica muito clara a posição de Petri. Ele não toma partido de nenhum dos dois lados. Mostra-os, simplesmente, sem demonstrar qualquer simpatia ou repúdio a qual um deles.

De operário alienado, “não dotado de consciência política” (como o define a sinopse do filme no site dedicado ao cineasta Petri,http://www.eliopetri.org), Lulu passará não para o lado dos sindicalistas moderados, mas para o dos estudantes radicais. Essa opção fará com que ele perca tudo o que tem – até mesmo o resto de lucidez.

A classe operária italiana nos anos 70 – é o que parece que Petri quer dizer – está materialmente melhor do que no início do século XX, por exemplo, cuja vida miserável vimos retratada no belíssimo Os Companheiros/I Compagni, de Monicelli, de 1963; as necessidades básicas podem ser satisfeitas, suas casas já não são miseráveis, podem comprar bens de consumo. No entanto, estão longe, muitíssimo longe de qualquer tipo de paraíso, fazendo um trabalho duro, pesado, que não lhes dá satisfação alguma, de nenhum tipo.

Uma câmara tão conturbada quanto o personagem central

aclasse1

Para contar a história desse homem conturbado, num mundo conturbado, Elio Petri usa uma câmara absolutamente conturbada. Abusa dos close-ups, muitas vezes usa o quadro inteiro, a tela inteira, para pegar apenas um pedaço do rosto dos atores. E abusa ainda mais da câmara de mão. Sua câmara é inquieta como um menino hiper-ativo de dois anos de idade. O espectador sai do filme cansado, quase tão cansado como um operário depois de uma dura jornada de trabalho de oito horas diante do torno.

Mas é, sem dúvida nenhuma, um filme forte, poderoso, impressionante.

Como o filme é tudo isso, é marcante, importante – ganhou a Palma de Ouro em Cannes em 1972, dividida com outro filme do cinema político italiano, O Caso Mattei, de Francesco Rossi –, estranhei a ausência de referências a ele em vários dos meus alfarrábios. Ele não está no livro de Pauline Kael, nem no guia de Leonard Maltin, nem no Off-Hollywood Movies, nem no Roger Ebert. Esquisito.

Comentários desativados em Dia do Trabalhador é tema do Cineclube Cinemofônico

%d blogueiros gostam disto: