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Uma década de Rio das Ostras Jazz & Blues Festival

Posted in Brasil, Cidade, Cultura, Estereofonia, Internacional, Região by ImprensaBR on 07/05/2012

Por Marina Soares*

mscultura@gmail.com

Completando sua 10ª edição, em 2012, O Rio das Ostras Jazz & Blues Festival, vem dar exemplo de como a Cultura, pode ser um negócio rentável e elemento dinamizador para economia, a partir do apoio dos órgãos públicos e da competência em gestão

O produtor do maior evento realizado em Rio das Ostras falou a evolução do projeto nesses 10 anos do Rio das Ostras Jazz & Blues Festival

Certamente, não é de imediato que se assimila a ideia de uma cidade como Rio das Ostras, que, a princípio, não possui uma organização pública para Cultura – com uma secretária do setor, Conselho, Plano ou mesmo perspectivas de planejamento sendo divulgadas – venha ser a cidade a sediar o maior Festival de Jazz e Blues da América Latina, segundo a revista “Downbeat”, especializada no gênero, que divulgou na sua edição do mês de maio o Festival de Jazz & Blues, que leva o nome da cidade de Rio das Ostras para o mundo.

Por outro lado, foi a partir da frágil vocação turística de Rio das Ostras (se comparada, por exemplo, a sua vizinha Búzios), que o produtor cultural Stenio Mattos, idealizador do projeto, a convite de um amigo, o secretário de turismo da época, deu início em 2002 ao seu ousado empreendimento de realizar um festival de jazz & blues em Rio das Ostras, sem prever exatamente quais seriam suas chances de continuidade, quando aconteceu pela primeira como um festival de música instrumental. Contudo, foi identificando essa fragilidade e o retorno do público, que Stenio, percebeu que o Festival poderia dar uma relevante colaboração para o desenvolvimento do turismo local.

Sem dúvida hoje, em sua décima edição, o Festival de Jazz & Blues de Rio das Ostras, tem atraindo o público de diversos lugares, que apaixonado pelos gêneros, vem disfrutar dos momentos de emoção, ao acompanhar ao vivo, o que seria a marca mais importante do jazz: a improvisação dos temas musicais realizada pelos músicos, que também anseiam por essa ocasião para apresentar todo seu apuro técnico e se desafiarem na busca de inovação em suas execuções.

Deste modo, o festival passou a chamar a atenção do público local, que mesmo não sendo amantes do jazz ou tendo o costume de apreciar os gêneros, se orgulham de ter um evento deste porte na cidade, percebendo o momento do festival como uma oportunidade de trabalho e de movimentar a economia do comércio de Rio das Ostras, que no decorrer dos anos se viu exigida a melhorar a qualidade dos seus serviços.

Quando saímos um pouco do óbvio e pensamos em toda representatividade do fenômeno do jazz para a sociedade, podemos entender por que essa manifestação da cultura popular moderna, permanece até hoje sendo absorvida pelos mais diversos estilos musicais, que  “bebem” na sua fonte e em seguida reproduzem as suas invenções na indústria de entretenimento de massa.

Rio das Ostras Capital do Jazz & Blues, segundo a Lei 6056/2011

Pensando também, o espaço real como produtor de subjetividade, não é menos relevante  considerar o fato de Rio das Ostras, uma cidade tradicionalmente turística e de veraneio,  “cortada” por uma rodovia –  que vem a sugerir trânsito, passagem, “fluxo da vida”, como diria Hobsbawm¹, ao descrever as características simbólicas do jazz – ser exatamente o lugar a acolher um festival do gênero, que carrega como um dos seus simbolismo, o desejo pela  liberdade pessoal (representado em algumas músicas pela metáfora da estrada como caminho para viagem ao paraíso) e mas do que isso, pensando a própria condição do Jazz como fenômeno musical que se encontra no espaço do “entre”, da passagem, ao  transgredir a música clássica oficial de uma minoria, mas sem ocupar o lugar da música da indústria de entretenimento de massa (quando não se propõe a padronizar as suas execuções musicais), pode-se, a grosso modo, começar a  compreender por que o sucesso do Festival de Jazz & Blues, se deu também pelas correspondência simbólica da cidade de  Rio das Ostras.

Na palestra realizada no último dia 04, no PURO/UFF, o proprietário da Azul produções, responsável pelo festival, Stenio Mattos citou a criação da lei 5.554/2009, que insere o evento no calendário oficial anual do estado do Rio de Janeiro, fazendo com que seja “obrigatória”, para não dizer necessária a sua realização. Demonstrando, ser a cultura o produto que movimenta e tende a desenvolver a economia de Rio das Ostras.

Tendo vista, que o Festival provou ser capaz de atender a demanda turística ao longo dos anos, o caminho agora para o seu pleno amadurecimento, poderia ser sua participação mais ampla no desenvolvimento do setor cultural local. Neste sentido, o diálogo que foi aberto com  Pólo/UFF para a realização de palestras e workshops durante o festival e da oportunidade de alguns postos de estágios para alunos do  curso de Produção Cultural desta universidade, já seria uma iniciativa positiva.

Contudo, mesmo diante dos resultados concretos do festival, que coloca a cidade Rio das Ostras no patamar de capital do jazz, segundo lei estadual 6.056/2011 e das discussões atuais sobre o planejamento do setor público para a cultura (desde a instauração da Lei Federal 2343/2010 do Plano Nacional de Cultura), não foi possível identificar em nenhum momento da palestra como o festival, pode ampliar sua atuação, estimulando o desenvolvimento de políticas públicas municipais, que contribuam, inclusive, para expansão do projeto, com a perspectiva de aumento do orçamento para o próprio festival e programas culturais que venham a abranger outras linguagens, possibilitando não somente a formação de plateia, mas também a formação e criação de mão-de-obra qualificada e remunerada de artistas, técnicos e produtores locais, a partir da abertura de novos postos de trabalho e desta forma, permitir a expansão do setor cultural de Rio das Ostras.

¹Hobsbawm, Eric. História Social do Jazz. Ed. Paz e Terra, Rio de Janeiro 2009.

* Marina Soares é Produtora Cultural e Editora do Caderno de Cultura do jornal O Polifônico.

Fotos: Leonor Bianchi

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