!@ {o polifônico, [Jornalismo de Intervenção # Por Leonor Bianchi]

Jingles políticos em Rio das Ostras: o ‘chiclete de orelha’ dos candidatos já está tocando por aí

Posted in Brasil, Cidade, Eleições 2012, Política by ImprensaBR on 01/08/2012

LB

Esta semana começaram a circular na Internet, através das redes sociais mais frequentadas, os vídeos de alguns candidatos de Rio das Ostras com seus respectivos jingles da campanha 2012.

Sendo uma forma específica de comunicar, o jingle exerce funções diferentes do jornal impresso e da televisão numa campanha eleitoral. Ele promove a sensação de euforia e comunhão identitária em quem o escuta. É um forte instrumento de manipulação, e os ritmos mais usados pelos compositores para fazer essas canções, seguem a risca o que toca nas paradas de sucesso das rádios populares do Brasil. O resultado são jingles políticos feitos em ritmo de pagode, samba, axé, forró, rock, música romântica (vejam essa!!!) e até tecnobrega, o que mais vamos escutar este ano em todo o Brasil, e em Rio das Ostras não seria diferente.

Em seu estudo ‘A Função Sinestésica do Jingle Político’, a jornalista e pesquisadora Silvia Thais De Poli (1) caracteriza o Jingle “como uma peça publicitária que como tal, possui características de Propaganda. De forma geral, a Propaganda tem por objetivo determinar a convicção de consumir, relacionando sentimentos a ideias, estimulando o desejo de garantir valores almejados pelo seu público-alvo. O jingle é um das formas utilizadas para se alcançar a coerência comportamental necessária além de apresentar o candidato como a solução para as necessidades do cidadão”. O foco do estudo da jornalista é compreender a música do jingle como construtora da identidade social e individual, e explicar o que motiva uma resposta sinestésica do ouvinte/leitor a essa música (o jingle político).

Ainda segundo a pesquisadora “a composição do jingle político é formada pela união entre a melodia e a poética. Reforçando a ideia linguística, a melodia contempla recursos psicológicos e, especificamente, a sinestesia. Os compassos curtos, que são tocados por arranjos bem marcados pelos baixos alternados, caracterizam um movimento denominado Marcha’. E segue […] “geralmente utilizado na execução de músicas folclóricas, cantigas infantis, canções patriotas, religiosas e tradicionais – esse tipo de movimento rítmico é muito popular por atingir o ‘povo’, que provavelmente estranharia outro movimento mais complexo como o Jazz ou a Música Clássica.

Existe uma diferença entre a velocidade e os tempos das notas, já que o andamento é moderato e a duração das figuras – em sua maioria – são rápidas com o compasso acelerado. Essa diferença de notas representa uma preocupação em tocar essa música de forma ‘alegre e entusiasmada’ com o andamento lento, pois se esse também fosse acelerado o ouvinte poderia não compreender nitidamente a mensagem transmitida pela canção”.

Não pretendemos nos ater à função emocional da música no contexto social de forma ampla, mas contextualizá-la no cenário atual das campanhas eleitorais em Rio das Ostras. E nesta perspectiva, encontramos Rafael Sampaio, e livro ‘Propaganda de A a Z: como usar a propaganda para construir marcas e  empresas de sucesso’. Nele, Sampaio afirma que “as pessoas ouvem o Jingle e não esquecem. É aquilo que a sabedoria popular denomina de “chiclete de orelha”. A vantagem dos jingles, em razão do formato, é que essas peças musicais contém, além da mensagem, o clima, a emoção objetivada e um expressivo poder de “recall”. O jingle é algo que fica, uma vez que as pessoas guardam o tema consigo e muitos anos depois ainda são lembradas pelos consumidores. Devido ao poder de memorização que a música tem, o jingle é uma alternativa de comunicação muito poderosa”.

O jingle no Brasil

O jingle apareceu no Brasil em 1932, no de rádio de Ademar Casé, o ‘Programa Casé’, mas antes disso, a história do jingle político começa antes disso, na campanha do então do então presidente da República, Marechal Hermes das Fonseca – conhecido popularmente como “seu Dudu”, em 1914.

Tanto na política quanto na publicidade a história do jingle é antiga no Brasil e nos remete ao voto livre no país. Na década de vinte do século XIX eram normais as paródias musicais de cunho político, que satirizavam candidatos e políticos. Analisando mais profundamente essas músicas, vemos que as mesmas podem ser vistas como um jingle político. Segundo o cientista político Luiz Claudio Lourenço, isso poderia nos levar a conclusão de que o jingle político no país surge antes mesmo do jingle comercial tanto aqui e quanto nos Estados Unidos.

Foi na década seguinte, com as megalômicas campanhas eleitorais de Getulio Vargas, que o jingle passou a ter importante uso político e não saiu mais deste campo. Getulio soube utilizar bem este elemento como uma estratégia para ganhar a simpatia e as eleições.

Jânio Quadros também fez do jingle sua marca quando foi às ruas com varre, varre vassourinha. A canção o acompanharia em todas as suas campanhas políticas até 1985, quando venceu as eleições para a prefeitura de São Paulo.

Nos anos 30, no cinema o que estava em voga eram os filmes que imitavam a cinematografia estadunidente. Produtoras brasileiras só rodavam chanchadas, filmes de enredo ingênuo, humorístico, regados a muita marchinha de carnaval. E foi nessa mesma estética que os primeiros jingles políticos no Brasil eram criados. Durante 30 anos, de 1930 a 1960, foram os hinos, as marchas, o samba e as músicas carnavalescas que predominaram entre os gêneros musicais mais utilizados pelos jingles políticos. E para fazer mais sucesso, a escolha e preferência por cantores famosos da época para interpretar os jingles já eram uma prática dos políticos.

Desde seu surgimento, o jingle político não parou mais de ser utilizado e, ainda com as novas mídias e tecnologias de comunicação, permanece vivíssimo ecoando em nossos ouvidos durante o período eleitoral.

Em seu artigo ‘Jingles Políticos: estratégia, cultura e memória nas eleições brasileiras’ o cientista social Luiz Cláudio Lourenço (2), nos lembra, que “as relações entre música e política no Brasil são mais antigas que a própria república e se já aparecem na composição de nosso primeiro hino nacional, hoje hino da independência, na pareceria Evaristo da Veiga e D. Pedro I. Esta relação, política e música, passou pela música de escárnio e a paródia política que foram as raízes dos jingles políticos-eleitorais que perduram até hoje”.

Márcia Vidal Nunes (3), em seu livro ‘O rádio no horário eleitoral de 2002: a sedução sonora como estratégia de marketing’, estuda a linguagem sonora no meio radiofônico nas campanhas eleitorais brasileiras. Segundo ela, o jingle congrega algumas características próprias: emocionalidade, fala reiterativa, conversa fixadora e imagem marca. Características estas que se apresentam em todos os jingles políticos. Seria o jingle, então, o elemento de síntese da imagem do candidato, de suas virtudes e pontos fortes, assim como de suas propostas com uma linguagem emotiva, que reforce estes pontos, tentando fixar no eleitor uma ideia-chave, um conceito, sobre a candidatura (4).

Quanto vale o show?

Hoje, encontramos na Internet milhares de agências de publicidade que oferecem o serviço, mas embora a produção de um jingle, que gira em torno de R$ 1.000,00 não seja exorbitante dentro dos gastos da campanha eleitoral, a criação, produção e pagamento do cachê do intérprete pode ultrapassar R$ 10.000,00.

Esteja atento aos chicletes que soarão no seu ouvido nessas eleições e não caia no samba à toa. Lembre-se da sociedade do aplauso, a mesma que lota estádios de futebol aos domingos, mas que na hora de escolher seu representante governamental diz que não gosta de discutir política.

Listamos os links dos jingles de alguns candidatos ao governo de Rio das Ostras para que você conheça e reflita sobre suas mensagens e de forma alguma queremos com isso dar publicidade a esses candidatos ou reforçar sua imagem, ao contrário. Só não poderíamos deixar de fora deste breve artigo o tema que nos trouxe aqui. Vale ainda a ressalva de que linkamos estes abaixo apenas, pois não há postagens ainda na Internet de jingles de outros candidatos.

Jingles históricos de campanhas para a Presidência da República

http://www.youtube.com/watch?v=o2ETCBNaJrs&feature=related

Depoimento dos irmãos Jean e Paulo Garfunker (20 anos compondo jingles para campanhas políticas)

 http://www.youtube.com/watch?v=edIoPfGV3Hs

Jingle do Sabino para sua campanha a prefeito de Rio das Ostras, em 2008

Perceba que à época ainda havia um forte apelo romântico na composição, diferentemente de seu jingle atual, que remete o ouvinte a um estado de euforia e menos meditação. Nesse tempo, Rio das Ostras estava recebendo novos eleitores, mas não como hoje, que o número de habitantes e votantes no município evoluiu significativamente. Observe na nova música do candidato para a campanha 2012, a marchinha e uma tentativa de menção ao novo, atual, eletrônico. Mudaram os eleitores, mudou o apelo.

http://www.youtube.com/watch?v=X3Bg9-UzJok

Jingle da campanha 2012 de Sabino

http://www.youtube.com/watch?v=Rt_bjKCM6RU

Jingle da campanha 2012 de kátia Brandão, candidata ao legislativo de Rio das Ostras

http://www.youtube.com/watch?v=-4flweaIsjI&feature=related

Jingle da campanha 2012 de Rosenildo Correa Viana, candidato ao legislativo de Rio das Ostras

http://www.youtube.com/watch?v=vR4uWOrJF_0

 (1)  Jornalista, Pós-graduanda em Sociologia Política pela Universidade Federal do Paraná e mestranda no Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Comunicação e Linguagens pela Universidade Tuiuti do Paraná. Participa como integrante do grupo de pesquisa JORXX.

 (2)    Cientista social, professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal da Bahia.

 (3)    Doutora em Comunicação e Política da USP.

Anúncios

Comentários desativados em Jingles políticos em Rio das Ostras: o ‘chiclete de orelha’ dos candidatos já está tocando por aí

%d blogueiros gostam disto: