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Sobre Macaé e as eleições

Posted in Articulistas, Eleições 2012, Macaé, Matheus Thomaz by ImprensaBR on 09/08/2012

Por Matheus Tomaz*

O município de Macaé é de importância estratégica para o Estado do Rio de Janeiro. É onde está localizada a principal base de operações da Petrobrás, maior empresa estatal brasileira. A cidade vivencia um crescimento econômico e um processo de industrialização acelerado nos últimos anos, cujo impacto direto é a migração de muitos trabalhadores, crescimento demográfico e a emergência da questão social[1] como conseqüência do processo.

Conforme aponta o censo IBGE 2010, a população residente ultrapassou os 200 mil habitantes. A densidade demográfica passou de 100 hab/km², em 1991, para, aproximadamente, 174 hab/km². Trata-se de um dos municípios mais ricos do Estado, devido à parcela dos Royalties recebida por aqui. Mas essa riqueza toda somada ao volume de pessoas que habitam essas terras têm proporcionado também um crescimento acelerado de desigualdade, expressa na tal questão social.

Uma clara expressão dessa desigualdade é que, segundo dados do IBGE, o PIB per capita do município é de cerca de R$ 42 mil, um dos maiores do país e entre os cinco maiores do Estado do Rio de Janeiro. No entanto, o IDH (índice de desenvolvimento humano) é o 15º do Estado e o 82º do país. É visível como o desenvolvimento local segue a lei geral da acumulação capitalista[2], que afirma que enquanto uma ponta acumula bens e riquezas na outra cresce as expressões da pobreza e das mazelas humanas.

É nesse contexto que acontece a eleição para prefeito e para as cadeiras da casa legislativa municipal. E embora, residente, há 10 meses na cidade (sou mais um trabalhador que migrou com a família para a cidade). Mas com mais de dez anos de efetiva participação e militância tanto em movimentos sociais quanto em partidos políticos, vou arriscar alguns comentários sobre o processo atual e alguns de seus personagens. Hoje vou centrar na Eleição majoritária, são sete os candidatos que se apresentaram para concorrer à vaga de prefeito da cidade.

No campo da esquerda, houve uma divisão que acaba fragilizando ainda mais a atuação política de ambos os partidos, ainda incipientes na cidade. O PSTU aposta na candidatura do jovem petroleiro Mateus Ribeiro, deverão obter êxitos diante de suas expectativas para as eleições. Devem conseguir consolidar um bom núcleo partidário na cidade, ampliar o trabalho nos petroleiros e criar um lastro entre professores e juventude. Já o PSOL, passou por um período pré-eleitoral agitado e de intensa de movimentação interna. Foi desde a tentativa de filiação ao partido de Fred Kholer, passou por conversas com setores radicalizados do PT para ingresso no partido e terminou com prévias que, por uma apertada diferença de três votos, fez de Rafael Anunciação o candidato a prefeito pelo partido.

Há a candidatura de Zezé Abreu, do PPS, radialista com um programa de audiência significativa na cidade. Eu mesmo eventualmente ouvia por esse canal as noticias locais durante o trajeto para o trabalho, confesso que mais por falta de opção do que pela qualidade do serviço prestado, pois tem uma forte expressão assistencialista e demagoga. Uma vez ouvi o mesmo se desculpar por usar o Sistema Único de Saúde, que supostamente ele tiraria a vaga de um ‘necessitado’, postulante a político deveria ter algum entendimento sobre o que diz a constituição sobre direito à saúde.

Já na extrema direita, tem a candidatura do Pastor Nilson representando o DEM, o mesmo se coligou com o PR de Garotinho. Deve-se se pautar em idealizações conservadoras e religiosas. Por fim há a candidatura de Fred Kholer, pela legenda de aluguel PTN, que não tem tido muita sorte nesse processo. Primeiro teve a filiação no PSOL barrada pela militância do partido e agora tem seu registro de candidatura considerado indeferido pelo TER-RJ.

Mas a disputa que tem movimentado a cidade, as redes sociais e provocado fortes emoções e debates acalorados é entre os candidatos Christino Áureo e Dr. Aluizio.

O primeiro representa a situação, é o candidato do prefeito, e a continuidade do grupo político que dá a direção política e executa a gestão municipal pelo menos nos últimos 25 anos, mesmo com pequenas disputas e divergências entre eles, no fundo sempre estiveram ali juntos. Não é por acaso que diante de ameaça real de derrota todos se juntaram bem no espírito do nome da coligação: “De mãos dadas no presente e de olho no futuro”. Talvez tenha faltado um pequeno complemento, e, por favor, não pergunte nada do passado. Candidato pelo recém fundado PSD do cacique Kassab, Christino reflete as mesmas características do governo Sérgio Cabral de onde foi secretário, quer transformar tudo em negócio ao mesmo tempo em que faz obras de grande porte, preferencialmente pela DELTA.

Enquanto que o segundo surge no horizonte como o novo e se apresenta como a mudança nos rumos da política macaense. Deputado Federal pelo PV, Dr. Aluisio, que já esteve trabalhando diretamente na gestão municipal, concentra toda uma expectativa de mudança na cidade. Um dado interessante sobre o que mais ouvi nas ruas da cidade é que a situação não está boa e que precisa mudar. Tanto é assim que a coligação do atual prefeito tem um pouco de vergonha de se assumir.

A candidatura Verde apresenta um discurso moderno e vinculado ao desenvolvimento sustentável apostou em uma imagem mais radicalizada, que acaba também refletindo na construção programática, ao coligar com o PT e promover o vereador Danilo Funke como seu candidato a vice. Pode – se dizer que foi o único vereador que tinha ousadia em desobedecer ao prefeito, posto que os outros se portavam muito mais como garotos de recados do alcaide, sem qualquer independência ou coerência, do que representantes do poder legislativo. A vitória deste setor representaria quase uma revolução burguesa no município.

Assim vai acontecendo o processo eleitoral na cidade, as placas começar a surgir nas esquinas, carros e casas com seus grandes adesivos. Os burburinhos e intensa movimentação na rede social. Esta última tem provocado debates ora inflamados, ora apaixonados. Porém, substancialmente esses debates têm seguidos caminhos tortos, se discute muito mais a pessoa, sujeito candidato, do que efetivamente a idéia, proposta política e planejamento para gestão da cidade. Não há grandes grupos para debate e discussão de representatividade da cidade, mas grupos formados e administrados por militantes/cabo eleitorais, em geral pago para isso. Os debates se perdem numa política despolitizada que parece existir mais para confundir do que servir como instrumento de liberdade e escolha.

Enfim, acompanharei esse processo como um aprendizado sobre a cidade, seus cidadãos e suas figuras refletidas no plano político municipal. Não somente como expectador, mas também como sujeito morador da cidade e parte de tudo isso. Se há piora na qualidade de vida, na prestação dos serviços públicos ou na organização da cidade sou afetado, por isso essa idéia da observação participante, sempre com uns pitacos vez ou outra.

Fontes consultadas:

IAMAMOTO, Marilda V. O Serviço Social na contemporaneidade; trabalho e formação profissional. 2. ed. São Paulo: Cortez, 1999.

IBGE cidades http://www.ibge.gov.br/cidadesat/topwindow.htm?1

MARX, Karl. A lei geral da acumulação capitalista. O capital. Livro I, volume I. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 2009

[1] Segundo Iamamoto (1999, p. 27), a Questão Social pode ser definida como: O conjunto das expressões das desigualdades da sociedade capitalista madura, que têm uma raiz comum: a produção social é cada vez mais colectiva, o trabalho torna-se mais amplamente social, enquanto a apropriação dos seus frutos se mantém privada, monopolizada por uma parte da sociedade.

[2] “Mas os métodos de extrair mais-valia são, ao mesmo tempo, métodos de acumular, e todo aumento da acumulação torna-se reciprocamente, meio de desenvolver aqueles métodos. Infere-se daí que, na medida em que se acumula o capital, tem de se piorar a situação do trabalhador […] Determina uma acumulação de miséria correspondente à acumulação de capital. Acumulação de riqueza num pólo é, ao mesmo tempo, acumulação de miséria, de trabalho atormentante, de escravatura, ignorância, brutalização e degradação moral, no pólo oposto.” (Marx, 2009: 749)

*Matheus Tomaz é assistente social e articulista do jornal O Polifônico desde 2009.

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