!@ {o polifônico, [Jornalismo de Intervenção # Por Leonor Bianchi]

Vem pra cá

Posted in Articulistas, Zé Guimarães by ImprensaBR on 09/01/2012
– Vem cá, por que tão longe?
– Como longe? Longe é uma opinião, nada é longe!
Longe de quê? Há sempre alguma coisa próxima que é perto, depende de onde se está!
– Sim, com certeza, mas estou querendo dizer que é longe pra mim você morar aí; dificulta os nossos encontros.
– De repente nem é tão mal assim, penso que esse espaço é importante pra sentir saudade.
– Saudade não depende só da distância, muitas vezes sentimos saudade de nós mesmos e estamos ali.
– Mas a saudade não é daquele momento e sim do que um dia aconteceu ou se fez.
Também, duas horas apenas nos separam, o transporte é farto e eficiente, as estradas boas e em ótimas condições, portanto, nada de distância!
– Tá certo, mas o que “te” levou a morar em Macaé? Foi porque você se separou?
– Desta vez foi, mas já conheço Macaé há muitos anos, freqüento a Cidade desde 1976.
– Ah! Pensei que fosse apenas pela separação.
– Não, a minha família, isto é, alguns filhos e netos moram aqui. Os filhos vieram pra cá crianças, vim montar um restaurante em 1983 e, como não deu certo, voltei pro Rio sozinho. Foi uma guinada.
– Por que não deu certo?
– Porque foi mal planejado, embora a comida fosse ótima, a freqüência não era suficiente pra sustentar a mim e a um sócio.
A clientela era excelente, selecionada, mas não dava e assim a vaca foi pro brejo!
Como perdi dinheiro!
Vendi um apartamento pra entrar no negócio e outro pra sair.
_ Cheio de propriedades!
– Um era da minha mãe, Deus a tenha! Depenei a coitada e nunca resgatei o seu prejuízo, mas você sabe como é mãe, né?
Jamais fez qualquer alusão à perda, ou reclamou, porém fiquei mal com essa história.
– Quer dizer que Macaé, não foi uma boa coisa pra você?
– Não, não foi, detesto este lugar, mas sinto de forma estranha que os fatos, a vida em si, me puxam pra cá. Já morei aqui umas três vezes, é kármico! Intuo que preciso completar uma fase de vida nesta Cidade.
Conheci a pessoa que me trouxe pra cá, em Goiânia, na década de 60… Veja quanto tempo!
Sinto como se fosse uma missão e quanto mais tento escapar acabo sempre voltando.
Macaé me lembra Brasília, morei lá sete anos e quase enlouqueci naquele lugar!
Falo aquele lugar, porque na época Brasília não era uma cidade, mas um monte de gente de todas as partes do Brasil, cada qual com a sua cultura, seus hábitos em busca de uma vida melhor, assim a mídia propagava, isto é, para a maioria porque muita gente foi pra lá obrigada.
Não se pode dizer que foi de todo mal, a maioria de seus habitantes melhorou muito o status, o padrão de vida, inclusive eu, no entanto, o lugar virou a capital do novo rico!
Você precisava ver a empáfia, a arrogância.
As pessoas se mediam, de forma insaciável, pelos bens de consumo adquiridos.
Houve ocasiões que numa reunião de casais amigos ao final de semana, marido e mulher iam cada um no seu carro.
Fora isso toda a ação se desenrolava em torno do serviço público e, por ser a época da ditadura, a tônica era o SNI, quem sobe ou desce na política ou então, quem desapareceu!
Qualquer um que tivesse um parente no SNI, mesmo que fosse um contínuo, se arvorava de um poder fictício e consentido por um medo imaginário, arquétipo, mas óbvio e nessa neura ameaçava ostensivamente as pessoas, os colegas de trabalho… Um terror!
E “tome” de falar em processo. Insuportável!
Depois de sete anos me perguntei se havia coisa pior do que permanecer lá e não encontrei uma afirmativa razoável: qualquer coisa que me acontecesse, nada seria pior!
Por isso estamos aqui conversando.
– Mas o que tem Macaé com isso, com Brasília?
– Simples: Brasília foi um moedor na minha vida… Experimentei, naquela Capital, sensações jamais cogitadas!
Conheci em mim outro ser humano que jamais julguei existir e me fez perceber o quanto era pretensioso. Aprendi muito lá, mas à custa de muita dor e muito desespero, uma coisa ambivalente porque o conforto material era crescente, mas a agonia, o sentimento de vazio era desesperador.
Nada me contentava! Queria sempre mais!
– Ainda não entendi a metáfora.
– Mantendo as devidas proporções, tudo é muito parecido, só que aqui a cidade já existia, tinha a sua vida própria, vida de interior, provinciana.  De repente foi assolada por uma avalanche de pessoas de toda parte do mundo desfigurando totalmente o viver ameno e bucólico da pequena cidade que era
Em dez anos a Macaé, sofreu uma metamorfose, foi violentada, estuprada, virou uma grande prostituta: favelas, vícios, carestia, tóxicos, contrabando, prostituição, assaltos, arrogância, desperdício, em suma, todos os maus hábitos de uma grande cidade.
A Cidade cresce e eleva o padrão das pessoas, mas à custa de muita violência “lato sensu”.
A Petrobrás é a grande responsável pela transformação, trouxe o progresso, mas… É o preço que se paga, infelizmente. (more…)

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Da TV Excelsior em 64 às páginas virtuais da polifonia cibernética. A partir deste mês O Polifônico conta com mais um colaborador. Saiba quem é…

Posted in Articulistas, Jornalismo de Intervenção, Zé Guimarães by ImprensaBR on 03/01/2012
A partir de janeiro de 2012 passamos a contar com a colaboração mais do que especial do grande amigo e poeta Zé Guimarães, que ilustrará nossas páginas virtuais com seu bom humor, sua sapiência, sua paixão pelo viver e pelo ser humano. Saiba quem é esta figuraça que foi assistente de Produção da TV Excelsior em 1964!!!

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